A moderação conjugal e a pureza requerida por Deus - João Calvino
A moderação conjugal e a pureza requerida por Deus
Além disso, quando os cônjuges compreendem que sua união foi abençoada pelo Senhor, devem reconhecer também que essa bênção não lhes concede liberdade para uma entrega desordenada aos desejos. Embora o matrimônio honroso remova a vergonha da incontinência e ofereça um meio legítimo para sua contenção, não segue daí que deva tornar-se ocasião para excessos. Portanto, marido e mulher devem lembrar-se de que nem tudo lhes convém. Haja sobriedade na conduta do marido para com sua esposa e igualmente da esposa para com seu marido, de modo que ambos procedam com dignidade e moderação, sem nada fazer que seja incompatível com a honra e a temperança próprias da vida matrimonial.
O casamento contraído diante de Deus deve refletir equilíbrio, recato e domínio próprio, e não transformar-se em ocasião para sensualidade desenfreada. Por isso, Ambrósio censurou com severidade, mas não sem razão, aquele que, mesmo nas relações conjugais, age sem modéstia nem decoro, afirmando que tal homem comete adultério com sua própria esposa. Sua intenção era mostrar que a pureza exigida por Deus não se limita à legitimidade da união, mas alcança também a maneira pela qual ela é vivida.
Consideremos, por fim, quem é o Legislador que condena a fornicação: é o próprio Deus, aquele que possui pleno direito sobre nós e exige integridade de corpo, alma e espírito. Assim, ao proibir a impureza sexual, ele também proíbe tudo aquilo que possa servir de armadilha para a castidade do próximo, seja por meio de vestes provocantes, gestos indecentes ou palavras obscenas. Por isso, havia sabedoria na observação de Arquelau a um jovem excessivamente afeminado e luxuoso em suas roupas, ao afirmar que pouco importava em que parte de sua vida a devassidão se manifestasse. Devemos lembrar que Deus abomina toda contaminação, seja ela exterior ou interior. E, para que não haja qualquer dúvida quanto ao propósito deste mandamento, recordemos que aquilo que o Senhor aqui recomenda é a castidade.
Se ele aprova a castidade, necessariamente condena tudo o que lhe é contrário. Portanto, quem deseja obedecer a Deus deve guardar o coração dos desejos impuros, os olhos de contemplarem aquilo que corrompe, o corpo de servir como instrumento de sedução, a língua de palavras indecentes e os apetites de toda intemperança que desperte paixões pecaminosas. Todos esses vícios são manchas que obscurecem e maculam a pureza que Deus requer do seu povo.
Institutas da Religião Cristã, livro 2 - Tradução EATRE - em andamento...
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