As Duas Babilônias - The Two Babylons - Alexander Hislop


A fim de promover e divulgar a obra "The Two Babylons", estou disponibilizando um trecho importante do livro. Aqui o autor está tratando da veneração às relíquias.

O livro foi traduzido por mim (Devair S. Eduardo) e está disponível para Kindle e em mídia física pela editora UICLAP, os links para compra são:

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Adoração de relíquias

Nada é mais característico de Roma do que a adoração de relíquias. Onde quer que uma capela seja aberta ou um templo consagrado, ele não é considerado completo sem alguma relíquia de santo ou santa para conferir santidade ao local. As relíquias dos santos e os ossos apodrecidos dos mártires constituem uma parte significativa da riqueza da Igreja. Imposturas grosseiras foram cometidas em relação a essas relíquias, e os relatos mais absurdos sobre seus poderes milagrosos foram propagados, até mesmo por Padres de grande renome na história da cristandade. Mesmo Agostinho, com toda sua perspicácia filosófica e zelo contra certas formas de falsas doutrinas, foi profundamente influenciado pelo espírito supersticioso que levou à adoração de relíquias. Qualquer pessoa que leia a conclusão de sua famosa obra A Cidade de Deus não se surpreenderá que Roma o tenha canonizado e estabelecido como objeto de veneração para seus devotos.

Considere apenas alguns exemplos das histórias com as quais ele sustentou as ilusões prevalentes de sua época: "Quando o Bispo Projectius trouxe as relíquias de Santo Estêvão para a cidade chamada Aquae Tibiltinae, as pessoas se reuniram em grandes multidões para honrá-las. Entre elas estava uma mulher cega, que implorou às pessoas que a levassem até o bispo que carregava as RELÍQUIAS SAGRADAS. Assim o fizeram, e o bispo deu a ela algumas flores que tinha em sua mão. Ela as pegou, colocou nos olhos, e imediatamente sua visão foi restaurada, de modo que passou rapidamente à frente de todos os outros, não precisando mais de guia."

Nos dias de Agostinho, a "adoração" formal das relíquias ainda não estava plenamente estabelecida, mas os mártires a quem as relíquias supostamente pertenciam já eram invocados com orações e súplicas, o que recebia total aprovação do Bispo de Hipona, como a seguinte história deixa claro: Aqui, em Hipona, diz ele, havia um velho pobre e piedoso chamado Florentius, que ganhava a vida como costureiro. Certa vez, esse homem perdeu seu casaco e, não tendo condições de comprar outro, dirigiu-se ao santuário dos Vinte Mártires, naquela cidade, e rezou em voz alta, pedindo que eles o ajudassem a obter uma nova vestimenta. Um grupo de garotos tolos que o ouviu começou a segui-lo, zombando dele e perguntando se ele havia pedido cinquenta pence aos mártires para comprar um casaco.

O pobre homem seguiu silenciosamente em direção a sua casa, e ao passar perto do mar, avistou um grande peixe que havia sido lançado na areia, ainda ofegante. As pessoas presentes permitiram que ele pegasse o peixe, que ele levou a um certo Catosus, um cozinheiro e bom cristão, que o comprou por trezentos pence. Com o dinheiro, o homem planejava comprar lã para que sua esposa pudesse tecê-la e fazer-lhe uma nova vestimenta. Quando o cozinheiro cortou o peixe, encontrou dentro de sua barriga um anel de ouro. Sua consciência o impeliu a devolver o anel ao homem que lhe havia vendido o peixe. Assim o fez, dizendo: "Veja como os Vinte Mártires o vestiram!"

(Nota: De Civitate. A história do peixe e do anel é uma antiga história egípcia. WILKINSON.) Catosus, "o bom cristão", evidentemente era um instrumento dos sacerdotes, que poderiam facilmente ter colocado o anel dentro do peixe. O milagre atrairia adoradores ao santuário dos Vinte Mártires, beneficiando assim o santuário e recompensando amplamente seus administradores.

Assim, o grande Agostinho promovia a adoração de homens mortos e a veneração de suas relíquias milagrosas. As "crianças tolas" que zombavam da oração do alfaiate parecem ter tido mais bom senso do que o "velho alfaiate santo" ou o bispo. Agora, se os homens que professavam o cristianismo no século V estavam já pavimentando o caminho para a adoração de todos os tipos de trapos e ossos apodrecidos, é importante lembrar que, nos reinos pagãos, a mesma adoração floresceu por eras, muito antes de santos ou mártires cristãos terem aparecido no mundo. Na Grécia, a veneração supersticiosa pelas relíquias, especialmente pelos ossos de heróis deificados, era uma parte proeminente da idolatria popular.

A obra de Pausânias, o antiquário grego erudito, está repleta de referências a essa superstição. Por exemplo, sobre a omoplata de Pélops, é relatado que, após passar por diversas aventuras, foi identificada pelo oráculo de Delfos como um meio divino de livrar os eleanos de uma peste que os afligia. A relíquia sagrada foi, então, "entregue à custódia" do homem que a havia pescado do mar e, posteriormente, à sua descendência. Da mesma forma, os ossos do troiano Heitor foram preservados como um depósito precioso em Tebas.

Os tebanos, segundo Pausânias, "dizem que os ossos de Heitor foram trazidos de Troia em consequência do seguinte oráculo: 'Tebanos, que habitais a cidade de Cadmo, se desejais viver em vossa terra abençoados com riquezas imaculadas, tragam os ossos de Heitor, filho de Príamo, para vossos domínios na Ásia e reverenciem o herói de acordo com o mandado de Júpiter'." Muitos outros exemplos semelhantes podem ser encontrados no mesmo autor. Esses ossos, cuidadosamente preservados e reverenciados, eram considerados milagrosos. Desde os tempos mais antigos, o sistema budista também foi sustentado por relíquias que realizavam milagres, tão bem atestados quanto os atribuídos às relíquias de Santo Estêvão ou dos "Vinte Mártires".

No Mahawanso, um dos textos fundamentais da fé budista, é feita referência à consagração das relíquias de Buda: "O vencedor dos inimigos, tendo concluído as obras no receptáculo de relíquias, convocou uma assembleia do sacerdócio e assim se dirigiu a eles: 'As obras que me cabiam no receptáculo de relíquias estão concluídas. Amanhã, consagrarei as relíquias. Senhores, lembrem-se das relíquias.'" Quem nunca ouviu falar da exibição do Santo Sudário em Treves ao povo? O relato a seguir mostra uma exibição semelhante do Manto Sagrado de Buda: "Então, o sobrinho do Naga Rajah, com seu dom sobrenatural, saltando no ar até a altura de sete palmeiras e esticando o braço, trouxe ao local o Dupathupo (ou santuário), no qual estava consagrado o VESTIDO que Buda, como Príncipe Siddhartha, deixou de lado ao entrar para o sacerdócio... e O EXIBIU AO POVO." Esse "Manto Sagrado" de Buda era, sem dúvida, tão autêntico e digno de veneração quanto o "Manto Sagrado" de Treves.

A semelhança não termina aí. Há poucos anos, o Papa presenteou Francisco José da Áustria com um "DENTE" de São Pedro, como sinal de seu favor e consideração especiais. Os dentes de Buda são igualmente venerados entre seus devotos. "Rei dos Devas", disse um missionário budista enviado a uma das principais cortes de Ceilão para solicitar algumas relíquias ao Rajah, "Rei dos Devas, tu possuis a relíquia do dente canino direito de Buda, assim como a clavícula direita do mestre divino. Senhor dos Devas, não te oponhas a questões que envolvem a salvação da terra de Lanka." A eficácia milagrosa dessas relíquias é destacada no seguinte relato: "O Salvador do mundo (Buda), mesmo após atingir o Parinirvana ou emancipação final (isto é, após sua morte), realizou infinitos atos milagrosos através de uma relíquia corpórea, para o conforto espiritual e a prosperidade mundana da humanidade."

Enquanto o Vencedor (Buda) ainda vivia, o que ele não deve ter feito? Agora, nas Pesquisas Asiáticas, uma declaração é feita sobre as relíquias de Buda que revela de forma surpreendente a verdadeira origem da adoração dessas relíquias no budismo. A declaração é a seguinte: "Os ossos ou membros de Buda estavam espalhados por todo o mundo, assim como os de Osíris e Júpiter Zagreus. Coletá-los era o primeiro dever de seus descendentes e seguidores, e então sepultá-los. Por piedade filial, a lembrança dessa busca triste era anualmente mantida por uma cerimônia simbólica, com todas as marcas possíveis de pesar e tristeza, até que um sacerdote anunciasse que as relíquias sagradas haviam finalmente sido encontradas. Essa prática continua até hoje por várias tribos tártaras da religião de Buda; e a expressão 'os ossos do Filho do Espírito do céu' é peculiar aos chineses e a algumas tribos na Tartária."

Aqui, então, fica claro que a adoração de relíquias é apenas parte das cerimônias instituídas para comemorar a morte trágica de Osíris ou Nimrod, que, como o leitor deve lembrar, foi dividido em quatorze pedaços, enviados para várias regiões afetadas por sua apostasia e falsa adoração, com o propósito de aterrorizar todos que pudessem tentar seguir seu exemplo. Quando os apóstatas recuperaram seu poder, a primeira coisa que fizeram foi buscar essas relíquias desmembradas do grande líder da idolatria e enterrá-las com todas as honras e devoção.

Plutarco descreve essa busca da seguinte maneira: "Estando ciente do desmembramento de Osíris, Ísis partiu novamente em busca dos membros espalhados do corpo de seu marido, usando um barco de junco de papiro para navegar mais facilmente pelas áreas baixas e pantanosas do país... Uma razão atribuída para os diferentes sepulcros de Osíris mostrados no Egito é que, onde quer que algum de seus membros fosse encontrado, ela o enterrava naquele local. Outros supõem que isso foi um artifício da rainha, que presenteou cada uma dessas cidades com uma imagem de seu marido, para que, se Tifão (Set) vencesse Hórus na disputa que estava por vir, ele não conseguisse encontrar o sepulcro verdadeiro." Ísis conseguiu recuperar todos os membros, exceto um, que foi devorado pelos peixes Lepidotus, Phagrus e Oxyrhynchus, razão pela qual esses peixes eram considerados abomináveis pelos egípcios.

Para compensar a perda do membro de Osíris, Ísis consagrou o Falo e instituiu um festival solene em sua memória." Isso não apenas revela a verdadeira origem da adoração de relíquias, mas também demonstra que a multiplicação dessas relíquias pode se pretender de uma antiguidade venerável. Se Roma pode se gabar de ter dezesseis ou vinte brasões sagrados, sete ou oito braços de São Mateus e duas ou três cabeças de São Pedro, isso não é muito diferente do que o Egito fazia em relação às relíquias de Osíris. O Egito estava repleto de sepulcros do seu deus martirizado; pernas, braços e crânios — todos garantidos como genuínos — eram exibidos nos cemitérios rivais para a adoração dos fiéis egípcios. Essas relíquias não eram apenas sagradas, mas CONSAGRAVAM O PRÓPRIO SOLO onde estavam enterradas. Esse fato é citado por Wilkinson a partir de uma declaração de Plutarco:

"O templo dessa divindade em Abidos", diz Plutarco, "era particularmente venerado, e o lugar era considerado tão sagrado pelos egípcios que pessoas que viviam a grandes distâncias buscavam, e com dificuldade obtinham, permissão para possuir um sepulcro dentro de sua necrópole, para que, após a morte, pudessem repousar em SOLO SAGRADO PELA TUMBA dessa grande e misteriosa divindade." Se os locais onde as relíquias de Osíris foram enterradas eram considerados especialmente sagrados, é fácil perceber como isso naturalmente originaria as frequentes peregrinações entre os pagãos. O leitor certamente já sabe do valor que Roma atribui a essas peregrinações aos túmulos dos santos, e como, durante a Idade Média, uma das formas mais populares de expiar os pecados era empreender uma peregrinação ao santuário de São Tiago de Compostela, na Espanha, ou ao Santo Sepulcro, em Jerusalém.

Nas Escrituras, no entanto, não há o menor indício de algo semelhante a uma peregrinação ao túmulo de um santo, mártir, profeta ou apóstolo. A maneira pela qual o Senhor escolheu dispor do corpo de Moisés — enterrando-o Ele mesmo nas planícies de Moabe, para que ninguém jamais soubesse onde ficava seu túmulo — foi claramente planejada para repreender qualquer sentimento que pudesse dar origem a tais peregrinações. Considerando de onde Israel vinha, as ideias egípcias com as quais eles estavam contaminados, como evidenciado no episódio do bezerro de ouro, e a alta reverência que deviam ter por Moisés, a sabedoria de Deus em ocultar o corpo de Moisés é evidente. Na terra onde Israel peregrinou por tanto tempo, grandes e pomposas peregrinações ocorriam em certas épocas do ano, frequentemente acompanhadas de excessos grosseiros.

Heródoto nos conta que, em seu tempo, a multidão que anualmente ia em peregrinação a Bubastis somava 700.000 indivíduos, e que, nessa ocasião, mais vinho era consumido do que em qualquer outra época do ano. Wilkinson se refere a uma peregrinação semelhante a Philae: "Além da celebração dos grandes mistérios que ocorreram em Philae, uma grande cerimônia era realizada em um momento específico, quando os sacerdotes, em procissão solene, visitavam o túmulo [de Osíris] e o coroavam com flores. Plutarco até mesmo alega que todo acesso à ilha era proibido em qualquer outro período, e que nenhum pássaro voaria sobre ela, nem peixes nadariam perto desse SOLO CONSAGRADO." Isso sugere que não era apenas uma procissão local dos sacerdotes, mas uma peregrinação nacional; pois, segundo Diodoro, "o sepulcro de Osíris em Philae era reverenciado por todos os sacerdotes em todo o Egito."

Embora não tenhamos informações tão detalhadas sobre a adoração de relíquias na Assíria ou na Babilônia, temos evidências suficientes de que, assim como o deus babilônico era adorado no Egito sob o nome de Osíris, em sua própria terra havia a mesma reverência supersticiosa prestada às suas relíquias. Sabemos que, quando o Zoroastro babilônico morreu, ele teria dado sua vida voluntariamente como sacrifício e teria "encarregado seus compatriotas de preservar seus restos mortais", assegurando-lhes que o destino de seu império dependia da observância desse comando. Aprendemos com Ovídio que o "Busta Nini", ou "Túmulo de Ninus", permaneceu por eras como um dos monumentos da Babilônia.

Agora, ao compararmos a morte e a suposta ressurreição do falso Messias com a morte e a ressurreição do verdadeiro Messias, vemos um contraste marcante. Quando o falso Messias morreu, seu corpo foi desmembrado, e seus ossos espalhados pelo país. No caso do verdadeiro Messias, a Providência assegurou que Seu corpo fosse mantido intacto, cumprindo exatamente a profecia de que "nenhum osso Dele será quebrado."

Além disso, quando se alegava a ressurreição do falso Messias, essa ressurreição ocorria em um novo corpo, enquanto o antigo corpo, com todos os seus membros, permanecia para trás, evidenciando que a ressurreição não passava de uma farsa. Em contraste, quando o verdadeiro Messias foi "declarado Filho de Deus com poder, pela ressurreição dos mortos", Seu túmulo, mesmo vigiado zelosamente pela soldadesca romana incrédula, foi encontrado absolutamente vazio, e nenhum corpo morto foi ou poderia ser encontrado. A ressurreição de Cristo, portanto, repousa sobre bases completamente diferentes das de Osíris.

O corpo de Cristo, evidentemente, não poderia deixar relíquias, visto que Ele ressuscitou inteiramente. No entanto, Roma, para continuar o sistema babilônico, preencheu essa lacuna por meio das relíquias dos santos. Assim, as relíquias de São Pedro, São Paulo, São Thomas A' Beckett e São Lawrence O'Toole ocupam, na adoração papal, o mesmo lugar que as relíquias de Osíris no Egito ou de Zoroastro na Babilônia.

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