Contra a acusação de que a providência divina seria o mesmo que destino (João Calvino)
Contra a acusação de que a providência divina seria o mesmo que destino
Aqueles que procuram lançar descrédito sobre essa doutrina a caluniam como se fosse o mesmo dogma estoico acerca do destino (fatum). A mesma acusação já havia sido levantada antigamente contra Agostinho. Não desejamos disputar acerca de palavras; contudo, não admitimos o termo “destino”, tanto porque pertence ao tipo de expressões profanas das quais Paulo ordena que nos afastemos (1Tm 6:20), quanto porque, por meio dessa palavra odiosa, tenta-se lançar desprezo sobre a verdade de Deus. Além disso, essa acusação é falsa e maliciosa. Pois nós não imaginamos, como os estoicos, uma necessidade produzida por uma cadeia perpétua de causas interligadas e encerradas dentro da própria natureza. Antes, afirmamos que Deus é o ordenador e governador de todas as coisas; que, desde a eternidade mais remota, decretou em sua sabedoria tudo quanto haveria de fazer e que agora executa por seu poder aquilo que decretou. Assim, sustentamos que, por sua providência, não apenas os céus, a terra e as criaturas inanimadas são governados, mas também os conselhos e vontades dos homens, de tal modo que tudo se move exatamente segundo o curso que ele determinou.
Dir-se-á então: nada acontece por acaso? Nada é contingente? Respondo que Basílio, o Grande, falou corretamente ao afirmar que fortuna e acaso são termos pagãos, cujo significado não deveria ocupar a mente dos piedosos. Pois, se toda prosperidade é bênção de Deus e toda calamidade e adversidade procedem de sua maldição, não resta lugar algum para fortuna ou acaso nos acontecimentos humanos. Devemos também considerar atentamente as palavras de Agostinho. Ele confessa que se arrepende de haver usado tantas vezes o termo fortuna em seus escritos contra os acadêmicos, embora não pretendesse referir-se a alguma deusa pagã, mas apenas ao resultado imprevisto dos acontecimentos exteriores, bons ou maus. Por isso, dizia ele, usamos expressões como “talvez”, “porventura” ou “fortuitamente”, sem que a religião nos proíba, ainda que todas as coisas devam ser atribuídas à providência divina. E acrescenta que havia observado isso ao afirmar que aquilo que vulgarmente se chama fortuna é governado por uma ordem secreta, e que o acaso nada mais é do que uma causa cuja razão permanece oculta aos homens. Contudo, reconhece ter falado inadequadamente ao empregar o termo fortuna, vendo o mau hábito das pessoas, que em vez de dizerem “assim Deus quis”, dizem “assim a fortuna quis”.
ANTES DE TERMINAR: Este trecho da tradução das Institutas de João Calvino já está em andamento. O objetivo deste trabalho é oferecer ao público brasileiro uma linguagem revigorada, que preserve o vigor e a clareza característicos do reformador de Genebra, comunicando suas verdades com precisão à nova geração. O primeiro volume será concluído em breve. Para acompanhar o progresso desta obra e receber atualizações exclusivas, acompanhe as postagens em nossas redes sociais.
Em suma, Agostinho ensina em toda parte que, se qualquer coisa for deixada à fortuna, então o mundo inteiro será conduzido ao acaso. E embora em certo lugar diga que algumas coisas acontecem pelo livre-arbítrio do homem e outras pela providência de Deus, logo em seguida explica claramente que os próprios homens são governados pela providência divina, sustentando como princípio que nada seria mais absurdo do que afirmar que alguma coisa ocorre sem a ordenação de Deus, pois isso equivaleria a dizer que tudo sucede aleatoriamente. Por essa razão, ele também rejeita a contingência fundada na vontade humana e afirma, de maneira ainda mais clara, que nenhuma outra causa deve ser procurada além da vontade de Deus. E, quando emprega o termo “permissão”, seu sentido aparece claramente num único trecho de sua obra sobre a Trindade, onde demonstra que a vontade de Deus é a causa suprema e primeira de todas as coisas, porque nada acontece sem sua ordem ou permissão. Certamente Agostinho não imagina Deus sentado ociosamente numa torre de vigia apenas observando os acontecimentos enquanto decide permitir isto ou aquilo. A vontade divina que ele descreve é, por assim dizer, ativa e operante; de outro modo, não poderia ser chamada causa de coisa alguma.
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