CALVINO E A CERTEZA DA SALVAÇÃO

CALVINO E A CERTEZA DA SALVAÇÃO

Todavia, não damos aqui qualquer apoio àquela filosofia extremamente perniciosa que certos semi-papistas começaram recentemente a espalhar em segredo. Não podendo defender a dúvida grosseira ensinada pelos escolásticos, recorreram a outra invenção, procurando formar uma mistura de fé e incredulidade. Admitem que, sempre que olhamos para Cristo, possuímos pleno fundamento para esperar; porém, porque somos indignos de todas as bênçãos oferecidas nele, afirmam que devemos permanecer vacilando e hesitando diante de nossa indignidade. Em resumo, colocam a consciência entre esperança e temor, fazendo-a oscilar continuamente entre ambos. Assim, esperança e medo tornam-se opostos absolutos: uma cresce enquanto o outro diminui, e uma cai quando o outro se levanta. Dessa maneira, Satanás, percebendo que os antigos meios pelos quais costumava destruir a certeza da fé já são demasiado evidentes, procura agora miná-la por caminhos indiretos.

Mas que espécie de confiança é essa que continuamente cede lugar ao desespero? Dizem eles: se olhas para Cristo, a salvação é certa; se olhas para ti mesmo, a condenação é certa. Portanto, concluem que a mente deve alternar entre desconfiança e esperança, como se Cristo estivesse distante de nós, e não habitando em nós. Ora, esperamos a salvação dele não porque permaneça afastado, mas porque, enxertando-nos em seu corpo, não somente nos faz participantes de todos os seus benefícios, mas também de si mesmo. Portanto, respondo assim: se olhares para ti mesmo, certamente encontrarás condenação; mas, visto que Cristo te foi comunicado com todos os seus benefícios, de modo que tudo o que é dele se torna teu, foste feito membro dele e, consequentemente, um só com ele.

Sua justiça cobre os teus pecados; sua salvação extingue tua condenação; sua dignidade se interpõe, impedindo que tua indignidade venha diante dos olhos de Deus. E esta é verdadeiramente a realidade. Nunca devemos separar Cristo de nós, nem a nós dele; antes, devemos conservar firmemente, com ambas as mãos, a união pela qual ele nos ligou inseparavelmente a si mesmo. É isso o que o Apóstolo ensina quando diz: “O corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça” (Rm. 8:10). Segundo as sutilezas vazias desses homens, Paulo deveria ter dito que Cristo possui vida em si mesmo, mas que nós, por permanecermos pecadores, continuamos sujeitos à morte e condenação. Contudo, sua linguagem é completamente diferente. Ele ensina que a condenação que merecemos em nós mesmos é destruída pela salvação de Cristo.

E para confirmar isso, utiliza justamente o argumento já mencionado: Cristo não está fora de nós, mas habita em nós. Ele não apenas nos une a si por um vínculo indivisível de comunhão, mas, por uma maravilhosa participação, nos aproxima cada vez mais dele, até tornar-se inteiramente um conosco. E, embora eu não negue — como já disse anteriormente — que a fé às vezes sofra certas interrupções, quando sua fraqueza se dobra sob violentos ataques e sua luz parece sepultada sob as densas trevas da tentação, ainda assim, aconteça o que acontecer, a fé jamais deixa de desejar a Deus.

Calvinismo, uma paráfrase - Vol 2 - tradução em andamento. Ref. Ext.: Institutas de João Calvino, Livro 3; cap. 2.24

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