quinta-feira, 12 de abril de 2018

#02 - Como Deus enxerga o homem

O primeiro erro do nosso século em relação àquilo que o homem compreende de si, é a sua localização em relação a Deus e ao seu próximo. Isso porque criamos uma imagem positivista em relação ao caráter do homem de Deus e outra em relação ao homem comum. A tendencia de nossa época é atribuir poder e autoridade e algumas vezes até mesmo a perfeição a homens e mulheres de Deus e condenar os de fora ou, como em algumas igrejas, pessoas que ainda não obtiveram um certo nível espiritual. Porém, quando colocamos toda nossa bondade e justiça (o nosso máximo de ambos, não o aparente) diante da imensidão da bondade e justiça de Deus constatamos que ambos, crentes ou não, somos voltados ao mal.

Sete pontos da Graça de Deus

#02 - Como Deus enxerga o homem

A doutrina da depravação total

Não fosse a graça de Deus todos nós estaríamos condenados por nossa própria cegueira moral e espiritual. Afinal, você já parou para perguntar a Deus o que Ele acha de você? Vamos pensar em algumas respostas possíveis. Para isso precisamos voltar um “pouco” a história e lembrar algumas coisas ditas por Deus sobre a humanidade.


Culpados desde sempre


É muito comum iniciarmos este assunto usando os textos correspondente à queda de Adão e Eva, são em parte a base para esta doutrina e ajudam muito compreender os motivos, não usarei aqui para que você perceba que não é apenas a queda que reflete a condição do homem, outros textos e alguns importantíssimos relatam a mesma base.

“E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos. Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama. E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gênesis 6:1-5).
Este é um evento anterior ao dilúvio e nos mostra uma visão clara de Deus e toda a humanidade. Perceba que após a queda do homem a terra se encheu de pessoas, são a descendência de Adão e Eva aqui. Veja ainda que aqui já existe uma distinção entre filho de Deus e filho do homem, pessoas que como hoje adoravam a Deus e outras que não foram alcançadas pelo mesmo.
Muitos tentam interpretar esta passagem, no que se refere aos “filhos de Deus”, de forma incorreta afirmando que são anjos descritos por Moisés. Porém a própria Bíblia nos dá base para crer que anjos não sentem esse tipo de atração pela humanidade e não podem ter relações com humanos; é um pensamento humano atribuir gênero sexual aos anjos, porém, não há provas na Bíblia de que eles possuem algum e Jesus mesmo nos orienta a crer que os anjos não se casam (Mateus 22.30), se anjos não se casam e não possuem algum sexo definido pela Palavra de Deus, é tolice afirmar que eles se apaixonaram por humanos, mesmo porque um anjo está muito mais próximo das coisas espirituais do que um homem e isso seria impossível como ensina Jesus. Portanto, o que Deus está observando são as próprias pessoas, aqueles que o adoravam e as que não possuíam qualquer temor a Ele.

Poderíamos fantasiar e crer que são anjos, porém, o próprio texto Bíblico mostra que são homens, quando lemos “Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem;”, e “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra”. Ora se o assunto aqui fossem os anjos por que Moisés concluiria essa seção com palavras sobre o homem?
Deus, o nosso Deus, olhou para as obras dos seus filhos e dos povos que não o adoravam e ficou furioso com a maldade de ambos de modo que a única maneira de corrigir as coisas foi destruir o homem e recomeçar tudo usando como base a família de Noé, o único que naquele tempo era temente a Deus. E muitos podem achar que após o dilúvio o homem estava purificado uma vez que todos os “novos homens” nasceram de Noé, novamente o texto nos ensina sobre o assunto:
“E o Senhor sentiu o suave cheiro, e o Senhor disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice, nem tornarei mais a ferir todo o vivente, como fiz” (Gênesis 8:21).

Ainda que aprovando o sacrifício de Noé, Deus afirma mais uma vez a maldade humana e ainda usa palavras para definir o que o homem é, não o que ele foi e ainda adiciona as seguintes características humanas antes não mencionadas: “a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice” ou desde a sua “infância” como bem traduziu a versão NVT. Sendo assim os textos mais antigos nos mostram que Deus enxerga a maldade do homem e sabe que de fato ele deseja o mal, não apenas os ímpios, todos os homens tem dentro do seu coração algo como pensamentos maus.

Os homens de Deus na Bíblia


Como poderíamos pensar sermos perfeitos ou bons com tantos exemplos de imperfeições em toda Bíblia? Afinal de contas, somos nós melhores do que Abraão que mentiu sobre Sara? Acaso a sua mentira pode ser colocada como um ato de justiça ou de santidade (Gênesis 20-22)? Mentimos uns aos outros constantemente, por isso somos como Abraão, pecadores, mas temos a mesma fé de Abraão? Ou pode um líder ser mais sábio e perfeito do que Salomão? O rei mais famoso pela sua riqueza e sabedoria que influencia ainda hoje os filmes de Hollywood, mas que em seus últimos dias pecou contra o Senhor casando-se com mulheres pagãs e adorando seus ídolos (1 Reis 11)? Quantas vezes homens e mulheres de Deus desejam as coisas deste mundo? As facilidades, os prazeres e vantagens? Somos como Salomão, tão adúlteros como ele. Poderia aqui citar outros exemplos, Davi, Sansão ou Paulo, creio que não é necessário.
Como pode então, pessoas tão imperfeitas acharem ser boas diante de um Deus completamente justo e perfeito? Quando olhamos para a condição do homem nós enxergamos o pecado e a terrível tendencia ao mal. Esta é a nossa condição.

O homem e a salvação


Nossa situação diante de Deus é tão ruim que até aos seus discípulos Jesus chegou a afirmar que “aos homens isso é impossível” quanto à salvação em Mateus 19.26. A confissão de fé de Westminster sintetiza muito bem a nossa posição quanto a isso quando afirma:
“O homem, ao cair no estado de pecado, perdeu inteiramente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de sorte que um homem natural, inteiramente contrário a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso.” (CFW 9.3)

A doutrina da depravação total nos coloca face a face com nós mesmos, ela afirma que após a queda o homem está espiritualmente morto em seus pecados e nos faz lembrar que antes de sermos tocados (de verdade) pelo Espírito Santo tudo o que desejávamos era o pecado, não muito longe estamos hoje lutando contra o desejo de pecar e por diversas vezes caímos em tentações. É preciso ser sincero consigo mesmo para conseguir se enxergar numa ótica um pouco mais próxima da de Deus, sabemos que nunca chegaremos a ver como Ele, mas um breve vislumbre pode nos assustar.

O homem sem Deus é completamente mal


Paulo dedica um capítulo inteiro da carta aos Romanos para tratar desse assunto, vou citar apenas alguns versos para concluir esta lição.
De forma geral, no capítulo 3, Paulo está defendendo que todos os homens estão debaixo do pecado, o que tratamos até aqui, não apenas os gentios como alguns da igreja de Roma poderia imaginar e como de fato muitos crentes hoje imaginam, todos os homens estão debaixo do pecado. Claro que aqui é preciso fazer uma distinção entre quem luta contra o pecado e quem é escravo do mesmo, porém não é exatamente sobre isso que ele nos ensina no capítulo 3.
Ele termina o capítulo 2 com a grande afirmação de que nem todo mundo nascido dentro da nação de Israel era de fato filho de Deus e continua ensinando sobre as diferenças que poderiam haver entre os dois lados.
“Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; Como está escrito:Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda;Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Romanos 3:9-12).

Ele nos ensina que independente de nossa nacionalidade ou de termos nascido numa família religiosa estamos debaixo do pecado. Isso soa muito como lembrar ao filho de um delegado que ele também pode ser preso. Paulo vai ainda mais além e afirma que dentre todos os homens não há um que por conta própria busque o bem. Até mesmo o que chamamos de justiça está contaminado pelo pecado, logo a justiça que tentamos impor é sempre boa para nós mesmos. Isto se refere apenas aos ímpios? Vamos verificar:

Responda com toda sinceridade, olhe para si mesmo como que num espelho refletindo o seu caráter espiritual bem como a sua moralidade.

1 – Quando foi a última vez que você aplicou a sua justiça a uma determinada situação em que o outro lado foi o único beneficiado?
2 – Quando foi a última vez que uma boa ação sua beneficiou apenas o lado que recebeu? Não ignore que você fez isso para ser visto, ou para ter a consciência mais leve quanto ao problema ou que isso trouxesse de alguma maneira benefícios para você também.
3 – Quais foram as suas últimas ações que refletiram apenas o primeiro e o segundo mandamentos ensinados por Jesus em Marcos 12.29-31?

Compreenda que toda vez que o seu ego se torna importante, toda vez que você se coloca acima da importância de Deus e da necessidade do seu próximo algo ruim já aconteceu. Há ainda necessidade para explicações quanto a posição do homem em relação a Deus? Creio que não.

Como Deus resolve este problema?


Se o homem está completamente morto para poder enxergar a salvação, como alguns são salvos? O que Deus fez para nos aceitar se somos naturalmente inclinados ao mal desde cedo? Novamente a confissão de fé de Westminster nos responde de forma bastante eficaz.
“Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e a fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção ainda existente nele, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau” (CFW 9.4).

Sendo assim, para que o homem seja salvo não basta o aceitar ou o querer. Ele precisa antes ser liberto de sua escravidão, um escravo não pode gerar sua própria liberdade. Deus é completamente livre enquanto nós éramos completamente escravos. Não faria sentido ao homem desejar ser livre da sua escravidão se desde cedo só conhece a escravidão, ele não teria bases para se libertar, é como um morto tentando ser vivo, impossível. A única maneira de sermos salvos é antes de tudo recebendo a liberdade, ou seja, a vida da parte de Deus, o único com autoridade e poder para fazer com que o homem perceba onde se encontra e busque a Deus. Após isso temos a sensação de ter escolhido algo bom, mas uma escolha foi feita antes a nosso favor. Ele nos libertou e nos mostrou o que significa ser livres, sem isso não saberíamos o que é liberdade.

E aconteceu em nós, e irá acontecer com outros, justamente como Paulo explica em Colossenses 1.12-14.
Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz; o qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor; em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados.

Paulo ensina que foi antes Deus que nos preparou para participarmos da salvação, nos libertou do pecado e das trevas e nos incluiu no Reino dos Céus. A mesma coisa Jesus profetizou usando outra linguagem em João 10.26-28; 11.25-26.
Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas, como eu já vos tenho dito. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca ao de perecer, e nenhum homem as arrancará da minha mão”.
Disse-lhe Jesus: ‘eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim ainda que esteja morto ele viverá; e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. Crês tu isto?

Estando o homem morto em seus pecados, ou preso como citado no texto acima, Deus mesmo decide ser o nosso libertador, Jesus ensina que ele chama pelas suas ovelhas, Paulo que estando nós mortos Ele nos deu a vida, a mesma mensagem explicada de formas diferentes, não há ação humana quanto a salvação. Estávamos presos, ou mortos, e Cristo nos deu vida, ou nos libertou para enxergá-lo e após isso, percebendo a nossa posição de pecado somos levados ao arrependimento e perdoados por seu amor. Isso por causa do sacrifício de Jesus, ou seja, sua morte foi para que nós pudéssemos ser participantes de tudo isso sem que ainda tivéssemos noção de onde estávamos.
Não há “nós” quanto a salvação, vemos apenas Deus agindo a nosso favor.

Tendo conhecimento da total depravação do homem você poderia se sentir desesperado ou em dúvida quanto a própria salvação, porém, não é necessário medo, pois, uma vez que ouvimos a voz do Mestre e atendemos ao seu chamado todas essas coisas começaram a ficar para trás. Ainda que pecadores aqui, temos a certeza de que aquele que nos chamou não nos deixará para trás.
Você certamente não é a melhor pessoa do mundo, mas certamente tem o melhor Pastor!



"Eu sou o bom pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido"
(João 10.14)

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