Tourinho: Uma análise crítica sobre o Livro Fundamento do calvinismo-agostiniano
N.E.: Essa postagens traz apenas uma parte pequena no texto completo, produzido e editado pelo Francisco Trourinho. A intensão do blog é divulgar a análise do livro e sugerir a leitura completa no site oficial (link no final da postagem)
O livro Fundamento do calvinismo-agostiniano foi escrito pelo Dr. Ken Wilson e é um resumo de sua tese de doutorado na Universidade de Oxford. A tese defende que Agostinho, o Bispo de Hipona, foi o grande corruptor do cristianismo ao introduzir o maniqueísmo, estoicismo, gnose e neoplatonismo na fé cristã, especificamente a partir do ano 412 d.C.
O primeiro erro de Ken Wilson é colocar o determinismo em oposição direta ao livre-arbítrio. Para o autor, se um pai da Igreja mencionou o livre-arbítrio, isso implica automaticamente que ele negou o determinismo. Essa afirmação é falsa. Se fosse verdadeira, então a lógica inversa também se aplicaria: se algum pai da Igreja defendeu o determinismo, ele necessariamente teria negado o livre-arbítrio. No entanto, uma análise dos escritos patrísticos revela que nenhum deles foi tão extremo a ponto de negar a providência divina sobre todos os eventos, incluindo os atos pecaminosos dos homens. Pelo contrário, os pais da Igreja afirmaram ambas as realidades: o determinismo e o livre-arbítrio.
1.1 – O posicionamento Agostiniano-Reformado sobre a determinação dos atos livres
No pensamento popular, mesmo entre os reformados, esse conflito parece ser real. Não é raro que alguns recorram ao mistério como solução[2]. Contudo, não foi assim para Agostinho, nem para os Reformados. Tanto Agostinho quanto os Reformados acreditavam que o determinismo divino não anula a liberdade humana, mas que ambos são conciliáveis. Veja o que afirma a Confissão de Fé de Westminster:
“I. Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes são estabelecidas.” (seção 3.1).
A Confissão de Fé Batista de 1689:
“1. Desde toda a eternidade, Deus mesmo decretou todas as coisas que aconteceriam no tempo; e isto Ele fez segundo o conselho da sua própria vontade, muita sábia e muito santa. 1 Fê-lo, porém, de um modo em que Deus em nenhum sentido é o autor do pecado, 2 nem se torna co-responsável pelo pecado, nem faz violência à vontade de suas criaturas, nem impede a livre ação das causas secundárias ou contingentes. Pelo contrário, estas causas secundárias são confirmadas;” (seção 3.1).
O mesmo Calvino que defendeu uma forte visão da providência divina:
“Por isso, pois, ele é tido por onipotente, não porque de fato possa agir, contudo às vezes cesse e permaneça inativo; ou, por um impulso geral de continuidade ao curso da natureza que prefixou, mas porque, governando céu e terra por sua providência, a tudo regula de tal modo que nada ocorra senão por sua determinação.” (Institutas,1.16.3)
1.2 – Estoicismo e determinismo[8]
Ken Wilson, na página 20 de seu livro, afirma que o “arranha-céu lógico calvinista-agostiniano foi construído sobre uma base instável de areia sincretista pagã”. Segundo o autor, três filosofias pagãs influenciaram especificamente Agostinho: estoicismo, neoplatonismo e maniqueísmo (p. 20-29). Começaremos tratando do estoicismo.
De acordo com Wilson, Agostinho adotou um determinismo estoico, que ele denomina “determinismo unilateral”, introduzindo uma inovação e promovendo um sincretismo que, segundo o autor, não existia nos pais da Igreja antes de Agostinho. Uma crítica semelhante é feita a João Calvino, com destaque para o fato de que “João Calvino foi influenciado pelo estoicismo e escreveu seu primeiro livro sobre o De Clementia, do filósofo estoico Sêneca” (p. 107).
Entretanto, essa afirmação contém diversos erros. Primeiro, é falso que Agostinho tenha introduzido o estoicismo na Igreja ou tenha sido o primeiro a ensinar um determinismo. Além disso, o chamado “determinismo unilateral”, que Wilson acusa o Bispo de Hipona de ter ensinado, jamais foi de fato defendido por Agostinho, muito menos por Calvino.
O Apóstolo Paulo, por exemplo, cita com aprovação os filósofos estoicos Cleanto e Arato ao usar o Hino a Zeus em seu discurso no Areópago, conforme registrado em Atos 17:28: “Como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.” O poema utilizado pelo Apóstolo declara: “Soberano da natureza, e que guias com tua mão tudo quanto existe”[9], uma afirmação claramente determinista.
O Apóstolo Paulo, em outra ocasião (1 Co 15:33), também cita Menandro, outro poeta estoico. Devemos então chamá-lo de “corruptor do cristianismo” por mencionar filósofos estoicos com aprovação? Se Wilson estiver certo, a resposta é sim. Devemos nos unir aos teólogos liberais e afirmar que o Apóstolo Paulo corrompeu o cristianismo de Nosso Senhor Jesus.
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