domingo, 9 de julho de 2017

Crônicas de Zephira 2 - #02

Parte dois - Capítulo dois

Com uma pancada forte no vidro grosso a expressão de espanto do cientista fez com que um palavrão pudesse ser ouvido quase do lado de fora da antiga prisão. Nas macas repousavam um homem, aparentando ter trinta anos com corpo jovial, pele bronzeada e cabelos amarelo escuro como o cobre, estava nu, mas não havia órgão onde deveria. Tudo lacrado como um boneco. 
De onde Schultz estava podia ver que ele tinha as pernas longas e abaixo da cintura era possível ver que uma estrutura de metal desaparecia antes do joelho, o mesmo acontecia no peito subindo aos braços e haviam ainda algumas aberturas entre os braços, coxas e no centro do peito.

Poderia adivinhar que haviam pelo menos três dessas na nuca, mas não conseguiu notar nada ainda. Do lado oposto uma espécie de animal repousava, parecia um leão, até mesmo uma juba cobreada tapava do ombro ao focinho. Tinha patas maiores que o normal e o corpo era um pouco menor do que Schultz lembrara quando imaginava um leão. O focinho era mais comprido, lembrava um lobo e as orelhas estavam em pé como quando um cachorro ouve alguma coisa anormal.

- Que… que merda é essa Edson? O que você tem feito aqui embaixo? – Disse se arrastando pelo vidro em direção à entrada.
- Isso que você está vendo é a maior descoberta da minha vida! – Dizia sorrindo enquanto caminhava em direção a ele com as mãos deslizando sobre os dois.
- Você tem construído robôs? Ou esse homem está morto?
- Vamos a um breve relatório Schultz. Dois robôs construídos pele de borracha japonesa revestidos de malha de aço fina para evitar muitos danos de percurso, veja – apontou ao peito do homem deitado – esse peito é feito com mais de quarenta milímetros de borracha de fabricação japonesa, a mesma que estão testando para as famosas bonecas sexuais, bastou aplicar as técnicas de exoesqueletos desenvolvidas recentemente pelo Google ao esqueleto humano fabricado agora em aço carbono e tcham! Temos um corpo humano dotado de algumas habilidades, eu diria, especiais!
- Fantástico! Mas como ele se mexe? E o peso, não atrapalha? Ah pode parar de me enrolar caramba, isso só pode ser brincadeira…
- Ele não apenas se move… recentemente eu acessei a darkweb e tive acesso a todos os protocolos da Boston Dinamics, dados de movimento, peso e gerenciamento. Todos recém aperfeiçoados para que os seus robôs pudessem não apenas se mover, mas calcular sozinhos todo o trajeto. Está vendo isso aqui? – Disse acariciando os cabelos do robô – Aqui dentro possui um sistema operacional escrito completamente em Linux e todos em códigos chineses que consegui na darkweb, isso aqui é impossível de ser acessado por qualquer pessoa. Além do mais o cérebro é formado por cinco microprocessadores quânticos de cinco giga-hertz sendo que ele mesmo gerencia a memória ram, aqui dentro eu tenho vinte e cinco giga-hertz de processamento em tempo real! Tudo isso interligado a quatro dos meus servidores em nuvem e a um dos satélites abandonados ainda em operação, eu mesmo fiz questão de fazer ele desaparecer para o governo e agora só esse rapaz aqui consegue usar!

- Consegue perceber que os joelhos, cotovelos e a cintura estão mais grossos que o normal? Cada uma dessas partes contém um microprocessador quântico, além dos motores de movimento, para gerenciar peso, mudanças de ambiente e demais coisas, ambos estão ligados aos processadores centrais na cabeça enquanto a visão, ouvido e fala receberam dois processadores cada. Os dois detalhes fundamentais para esse projeto são, a interligação entre os dois, via GPS e wireless 85ghz frequência não utilizada por ninguém no mundo. Isso significa que este rapaz aqui sozinho gerencia o que ele e o seu amigo aqui do lado faz. Sem nenhum controle separado ou ninguém para impedir, ele consegue visualizar e tomar decisões pelos dois robôs ao mesmo tempo e caso essa tarefa exija mais processamento eles compartilham dos quatro servidores em nuvem para usarem também!

- Há! Entendi, e eles vão ter de andar com umas vinte baterias em cada braço pra isso acontecer neh – disse gargalhando das aparentes idiotices do doutor que ao ouvir fechou um compartimento no peito do homem fazendo um clique enquanto dentro dele alguns sons se fizeram ouvir como quando ligamos um computador. Um apito baixo pode ser ouvido então lentamente o robô abriu os olhos projetando uma luz azulada que clareou a sala enquanto recolhia dados do local e reduziu num fecho fino até apagar.
- Meu Deus, Boff, essa coisa está viva! – Disse afastando-se quando notou o movimento do robô.
- Deus… essa palavra foi incluída recentemente no dicionário doutor, aparentemente mais de cinco milhões de pessoas usam ela e eu ainda não tenho uma definição para a mesma… - disse o robô enquanto se punha sentado na maca olhando fixamente para o doutor Schultz.

Naquele momento ele levou as duas mãos à cabeça em desesperado fascínio pelo que acabou de ouvir. Estava mudo, mas se pudesse falar sairiam tantos palavrões que teria de ser levado para fora da sala antes mesmo de terminar.

- O que exatamente ele pode fazer? Ele consegue realmente encontrar os arquivos perdidos do projeto Gênesis seis? Me fala mais sobre isso doutor, vou ficar bem aqui – apontou para um canto na sala onde se assentou cruzando as pernas apoiando as mãos nos joelhos – para ouvir tudo!
- Primeiro me responde uma coisa Schultz. A maioria dos pesquisadores e físicos entendem que voltar no tempo é impossível, até mesmo a viagem no tempo ainda é impossível. Como você pode afirmar ter descoberto uma maneira de ir e vir? Sua pesquisa parece tão louca quanto a minha, mas a minha eu estou vendo funcionar agora mesmo… a sua eu não sei se existe…
- Claro Edson! Você verá assim que eu colocar ela no seu… robô ou homem, sei lá! O fato de estar sendo divulgado que não é possível viajar no tempo hoje é muito comum nos centros de pesquisas. O governo não pode sair por aí dando receitas de bolo para todo mundo que pensa ser cientista. Por isso nem tudo que é descoberto é dado à imprensa e a pesquisadores comuns. Para conseguir o acesso a outros tempos é necessário quebrar o código zero. Ou seja, nada mais nada menos do que quebrar a estrutura da gravidade e do eletromagnetismo e em seguida explodirem os dois. Isso dá acesso ao que chamamos de realidade Zero, depois disso você precisa reagrupar a estrutura gravitacional e elétrica para que isso gere o tempo certo, onde você estará logo em seguida. Descobrimos isso após algumas pesquisas de locais aqui na Terra onde isso acontece do nada, como um fenômeno natural. É aberto um portal e algumas pessoas desaparecem, outros apenas veem e temos relatos de pessoas que após ter visto o portal ser aberto conseguiu ver pessoas no mesmo ambiente, chamamos isso de janela temporal, onde o mesmo lugar já foi habitado e essa pequena explosão mostra os dois lados em uma época aleatória, dizem que a pessoa do outro lado também consegue ver este efeito e foi assim que surgiu a famosa frase “eu vi um fantasma”!
- Acredito que seu eu deixar você continuar explicando vou acreditar que está mesmo ficando louco… vamos abreviar isso, me diga o que você precisa para construir esse aparelho de acesso. – Disse enquanto deitava o robô na maca ordenando que entrasse em modo de espera por quatro horas. Após isso apertou um botão na parede que fez descer do teto um pequeno laboratório com ferramentas e algumas peças usadas no dia anterior.
- Preciso de dois celulares com as primeiras versões do O.S Android com bateria de lítio, um pedaço de fio, dois alto falantes de boa qualidade e um editor de texto para incluir os códigos – terminou alisando a barba pensando na pequena cirurgia para retirar o chip com os dados necessários do projeto.
- Creio que tenho todos os itens que me pediu ali mesmo na mesa. Os aparelhos eu peço ao meu assistente que traga enquanto você retira esse negócio do pescoço. Fique à vontade Shultz, eu volto em alguns minutos.

Quatro horas depois os dois haviam desmontado os aparelhos e suas placas e baterias foram colocadas no peito do robô, com dois sistemas baseados nos mesmos códigos a resposta entre os aparelhos e o computador central seriam instantâneas, com uma condição, não era possível enviar o robô animal para outros lugares, ele ficaria perdido por toda eternidade sem a possibilidade de reconexão entre os dois. Era preciso que ele estivesse em estado de espera e protegido para que o robô homem pudesse acessar o dispositivo e assim conseguir fazer uso do mesmo. Os dois estavam satisfeitos com o resultado e uma pequena amostra da máquina fez com que Boff ficasse animado com o seu novo projeto. O robô abriu um portal zero dando visão a um local escuro aparentando ser o mesmo local, porém visto em uma época onde não existia nada.

- Precisamos de um teste doutor Boff! Como vamos saber o que ele vai fazer em campo? – Gritou entusiasmado em direção ao doutor que terminava de colocar roupas no robô. Vestia uma calça preta jeans e uma camisa azul escuro folgada de mangas compridas para disfarçar as junções externas de aço e borracha nos braços e joelhos.
- Você precisa de um teste?! Veja só: – virou-se para o robô – K36268 levante-se, calce aquelas botas e se prepare para começar seu treinamento avançado! – Rapidamente o robô se pôs de pé, pegou um dos calçados e em pé mesmo os calçou, um pé depois o outro sem bambear como fazemos.
- K36268? Que droga de nome é esse doutor? Vamos chamar ele de alguma coisa melhor!
- Este é o projeto K36268, o penúltimo fabricado aqui embaixo.
- Então… quer dizer que existe um K36269? – Questionou curioso…
- Sim… O K36269 está em outro laboratório e foi usado para testar todas as tecnologias que apliquei neste… é como um protótipo que eu criei depois para testar o que este está usando, só é um pouco mais… robusto. Deixa isso para depois Schultz, vamos aplicar um teste neste aqui, o que você sugere?
- Precisamos de um nome… e uma arma… vamos chama-lo de Scoth K36! O que acha? E sobre a arma o que você acha de mandarmos ele ao quartel do exército? Me parece um teste justo…

- A EAMES está a aproximadamente dois quilômetros daqui, posso realizar essa tarefa em menos de cinco horas sem ser visto ou em uma hora e meia soando os alarmes, uma simulação online está disponível para download. Sairei do ponto inicial em direção à ilha das cobras, dali avanço direto para a prainha de Inhoá subindo em seguida pela mata do morro do bairro chamado Jaburuna, de lá consigo acesso a sala de armas acessando a camada trinta e quatro do tempo/espaço e voltando assim que estiver dentro dela, fazendo o reverso para voltar devo demorar menos já que estarei acostumado com o trajeto. A propósito senhor Schultz, o nome Scoth foi bem aceito pelo sistema, obrigado! – Dizia em alto e bom som como um ser humano determinado e decidido do que precisava fazer para conseguir cumprir a primeira missão dada a ele. Ambos ficaram instantaneamente calados imaginando como ele conseguira evoluir tanto desde que foi religado. Schultz imaginou que possivelmente o robô tenha usado o mecanismo antes mesmo que eles soubessem, ele poderia ter ido a lugares infinitamente distantes e em outras eras, nunca saberiam se ele voltasse no mesmo instante que saiu e isso pode explicar como ele avançou como sistema operacional de forma tão rápida.

- Estaremos observando você online usando a câmera integrada Scoth, um microfone te faz comunicar com a gente e você pode nos ouvir também, se está pronto sua missão começa agora mesmo!

A missão foi iniciada exatamente como na simulação, algum atraso pode ser sentido devido ao local e às pedras do morro que não tinham como ser simuladas usando apenas o mapa disponível naquela época online. Scoth estava posicionado no muro do EAMES quando acionou o dispositivo pela primeira vez para acessar o prédio em uma época anterior à sua criação. Um buraco esférico que parecia circular constantemente refletia um pouco do que estava a sua frente com um fundo escuro se abriu quase na mesma altura do robô. Ele caminhou em sua direção e acessando o dispositivo pelo computador central optou pela camada de realidade trinta e quatro que se referia a um dia qualquer pouco antes de ter sido criado toda estrutura do quartel. Após isso ele simulou outras camadas para identificar o local exato da sala de armas o que pode ter o atrasado quase duas horas e quando voltou estava num quarto escuro, monitorado por quatro câmeras em paredes lotadas de armas, novas e velhas, quase todas velhas e usadas apenas para treino dos soldados do quartel. Não foi possível para as câmeras detectarem ele pois ao gravar o mapa da sala ele andava pelas camadas de tempo espaço até os locais onde elas estavam. Optou por um fuzil M16A1 jogado num canto, estava com a pintura descascada e parecia um pouco enferrujada e era a melhor arma dentro da sala naquele momento.
Scoth acessou novamente a realidade zero para sair do quartel. Quando voltou saiu em um local mais distante cerca de quinhentos metros onde um soldado fazia ronda. Ao ser visto o soldado rapidamente tentou render o robô apontando um fuzil em sua direção.

- Doutor… fui rendido, estou mudando os dados da missão e estão disponíveis para download novamente.
- Scoth, não temos tempo para acessar o arquivo, relate para nós o que você vai fazer. – Disse usando o transmissor integrado enquanto ambos estavam nervosos do outro lado.
- Este soldado não oferece risco algum além da possibilidade de soar o alarme, sua arma está descarregada e pelo porte físico ele não conseguiria disparar ela sem sofrer com o impacto de cada tiro, vou ter de usar o dispositivo para levar ele a outro local sem que isso afete a missão. – Entendido Scoth, prossiga com seu plano – respondeu Schultz com um grito tão alto e escandaloso como que estivesse querendo ser claro.


Scoth colocou as duas mãos na cabeça e aguardou o soldado chegar bem perto. Quando o soldado levou uma das mãos para retirar sua arma ele rapidamente o desarmou colocando uma das mãos na boca do soldado abafando os gritos enquanto empurrava para trás a fim de entrar no portal zero. Depois largando-o na prainha de Inhoá dois anos antes.
- Veja soldado, viajamos dois anos atrás para que você não me entregasse ao quartel – disse baixo no ouvido do soldado trêmulo e desarmado.
- Como isso é possível? Eu devo estar sonhando ou louco! Meu Deus! – Disse girando a cabeça para todos os lados enquanto tentava entender o que acontecera. Novamente a palavra Deus soou para Scoth como um problema a ser resolvido arquivado em algum lugar de sua programação.

- Vamos voltar ao ano que aconteceu tudo isso e você será deixado aqui na praia, aja como se estivesse perdido e cuidado com o que você fala, as pessoas podem achar que você realmente está ficando louco e vão tirar tudo de você… - quando terminou o soldado já estava sozinho, sentado na praia trêmulo tentando se levantar. Um morador que caminhava no local o ajudou a se levantar e recuperar o fôlego, enquanto isso Scoth estava chegando à ilha das cobras para concluir sua missão carregando o fuzil AM16A1 arranhado e sujo de areia. Enquanto descia a ilha em direção ao lado de acesso ao laboratório pode ouvir uma explosão, olhando para o presídio conseguiu ver que uma fumaça escura subia pelo acesso secreto enquanto algumas dezenas de carros da polícia circulavam o local de luzes acesas… saltou na água em direção à praia, mas o acesso a ela estava restrito devido a quantidade de pessoas armadas no local, era hora de outro plano, mas dessa vez um dos servidores de acesso e upload estava off-line.


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