quarta-feira, 14 de março de 2018

Spurgeon e o Salmo 139

Spurgeon e o Salmo 139

Sumário da postagem:
1 – Introdução
2 – Exposição de Salmo 139
      2.1 - Louvor a Deus pela sua infinita soberania (v.1-6)
      2.2 – A infinita soberania de Deus (v.7-18)
         A - Demonstrações da onipresença de Deus (v.7-12)
         B - Demonstrações da onisciência de Deus (v.13-18)
      2.3 – Uma profecia contra os ímpios – Jesus em Salmo 139 (v.19-22)
      2.4 – Oração final (v.23,24)

3 – Spurgeon e o Salmo 139
4 – O mistério do verso 19

A muito tempo no canal Palavras em Chamas do Youtube apresentei o material de Spurgeon a respeito da exposição de todo o livro de Salmo, algumas pessoas vieram me procurar pedinho que eu postasse alguma coisa do que ele ensina sobre algum texto em Salmo e eu fiquei devendo isso por um bom tempo, até agora.

Foi então que passeando pelos Salmo lembrei do 139, muito importante para todos que estudam as doutrinas da graça e para nós que adotamos nossa confissão de fé com base nas mesmas, hoje quero apresentar um pouco do que um dos maiores pregadores do século ensinava a respeito desse texto que é fonte de imenso conhecimento divino. Antes de passar para as palavras de Spurgeon eu quero lhe apresentar a estrutura e um breve resumo de cada parte presente neste belíssimo Salmo.
O salmista é Davi e neste texto ele adora a Deus pela sua grandeza de conhecimento, bem como sua infinita soberania. Dividi o texto como é apresentado na versão N.A.A. (Nova Almeida Atualizada) para compreender melhor o que Davi nos propõe enquanto escreve esse belíssimo cântico. Eis as divisões e uma breve exposição do seu conteúdo:

1 – Louvor a Deus pela sua infinita soberania
“Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe conheces os meus pensamentos. Observas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos. A palavra ainda nem chegou à minha língua, e tu, Senhor, já a conheces toda. Tu me cercas por todos os lados e pões a tua mão sobre mim. Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é tão elevado, que não posso atingir”.

Davi inicia seu cântico com uma breve e rica introdução. Aqui ele adora a Deus pela sua sabedoria e onisciência. Declarações iniciais que logo se juntam à declaração de onipresença de Deus terminando com um elogio ao Deus verdadeiro: “ Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é tão elevado, que não posso atingir”.

Para o salmista Deus conhece todos os nossos pensamentos e ações antes mesmo de realizá-los, o motivo ou a explicação para isso por enquanto está oculto, Davi apenas adora a Deus por tais feitos e nos ensina desde já que nosso Deus não conhece aquilo que estamos fazendo, ele vê ou viu tais coisas antes mesmo de fazermos, tal conhecimento por si só já são grandes demais, mas Davi continua nos ensinando sobre o assunto enquanto escreve sua canção.

Este conhecimento não é exclusivo dos Salmo 139, no capítulo 44 nós vemos uma declaração parecida do autor:
Se tivéssemos esquecido o nome do nosso Deus ou se tivéssemos estendido as mãos a um deus estranho, será que Deus não teria descoberto isso, ele, que conhece os segredos dos corações?” (v.20,21).

Davi não está criando um poema apenas, ele está afirmando nas duas declarações que Deus de fato sonda ou seja, conhece profundamente os desejos mais profundos da nossa mente. Isso significa que não precisamos externá-los para que Deus os conheça, mostra que ele os conhece antes mesmo de nós.

2 – A infinita soberania de Deus
Depois de uma breve introdução cheia de adoração a Deus o salmista começa a expor como Deus trabalha, aqui vemos alguns dos segredos que Deus resolveu nos revelar através das palavras de Davi.

A - Demonstrações da onipresença de Deus
É impossível escapar do teu Espírito; não há como fugir da tua presença. Se subo aos céus, lá estás; se desço ao mundo dos mortos, lá estás também. Se eu tomar as asas do amanhecer, se habitar do outro lado do oceano, mesmo ali tua mão me guiará, e tua força me sustentará. Eu poderia pedir à escuridão que me escondesse, e à luz ao meu redor que se tornasse noite, mas nem mesmo na escuridão posso me esconder de ti. Para ti, a noite é tão clara como o dia; escuridão e luz são a mesma coisa”. (v. 7-12)

Davi amplia nossa percepção da onipresença divina. se sabemos que ele conhece a nossa mente agora ele nos mostra que Deus está em todos os lugares, não apenas isto, Deus nos guia em todos os lugares de modo que ainda que quiséssemos fugir da sua presença não conseguiríamos. Para muitos isso soa como uma ameaça, não para o salmista, ele está adorando a Deus por sua presença preencher toda a extremidade da sua criação, o Deus que sonda o nosso coração nos guia em qualquer lugar que estivermos, percebe o tamanho dessa esperança ensinada por Davi? Quando ele afirma que “mesmo ali tua mão me guiará, e tua força me sustentará” enfatiza que Deus cuida de nós, não importa o local ou situação em que nos encontramos. Isso mostra algo mais, se Deus nos observa e nos guia é provável que ele mesmo esteja nos direcionando neste momento para algum lugar, já parou pra pensar nos últimos acontecimentos da sua vida? Quais deles revelam a vontade de Deus?

Mesmo quando eu andar pelo escuro vale da morte, não terei medo, pois tu estás ao meu lado. Tua vara e teu cajado me protegem” (Salmo 23.4)

B - Demonstrações da onisciência de Deus
“Tu formaste o meu interior e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te agradeço por me teres feito de modo tão extraordinário; tuas obras são maravilhosas, e disso eu sei muito bem. Tu me observavas quando eu estava sendo formado em segredo, enquanto eu era tecido na escuridão. Tu me viste quando eu ainda estava no ventre; cada dia de minha vida estava registrado em teu livro, cada momento foi estabelecido quando ainda nenhum deles existia. Como são preciosos os teus pensamentos a meu respeito, ó Deus; é impossível enumerá-los! Não sou capaz de contá-los; são mais numerosos que os grãos de areia. E, quando acordo, tu ainda estás comigo” (v. 13-18)

Presente em todos os lugares e o conhecimento pleno do homem, mas isso tudo não seria onisciência se Deus descobrisse algo sobre nós. Se o homem um dia surpreender Deus em alguma coisa fica provado que Ele não sabe todas as coisas. Davi agora expande o que começou no início da canção quando afirmou “antes mesmo de eu falar, Senhor, sabes o que vou dizer” com informações que vão além da onisciência divina, agora ele mostra que Deus não apenas conhece o coração do homem como também definiu todos os seus passos e isso faz com que o salmista tenha paz, porquê? Porque mesmo com tamanho conhecimento sobre Davi, Deus o ama. Isso mostra o quanto Deus tem apreço pelos seus filhos, ele já nos conhecia quando nos elegeu, portanto nada que fazemos é surpresa para Deus. Aliás, é errado afirmar que ele apenas nos conhecia, Deus escreveu todos os dias e acontecimentos da nossa vida, percebe como podemos ter esperança em Deus? Ele não te escolheu antes de conhecer os seus defeitos e pecados, ele já sabia muito bem quem era você, desde o pensamento até a estrutura de todo o seu corpo. Com um Deus assim podemos ter certeza de que nunca seremos abandonados.

Davi parece fazer aqui uma releitura e aplicação prática dos textos contidos no livro de Jó nos capítulos 10 e 11, esse pequeno texto sintetiza bem o que é ensinado lá, veja alguns versos mostrando isso:

“As tuas mãos me plasmaram e me fizeram, porém, agora, queres destruir-me. Lembra-te de que me formaste como em barro. E, agora, queres reduzir-me a pó?”
(Jó 10.8-9)
“Se eu pecar, tu me observas; e da minha iniquidade não me perdoarás” (Jó 10.14)
“Mas quem dera que Deus falasse e abrisse os seus lábios contra você, e lhe revelasse os segredos, pois a verdadeira sabedoria é multiforme! Saiba, portanto, que Deus permite que seja esquecida parte da sua iniquidade” (Jó 11.5,6)

Davi termina essa seção mais uma vez adorando a Deus pela sua sabedoria e profundidade de pensamentos (me pergunto se essa sabedoria não seria o próprio Jesus, mas isso ainda em off) e declara que o ser humano jamais conseguirá compreender todos os seus pensamentos.

Temos os mesmos motivos de adoração, Deus nos chamou quando ainda éramos pecadores e nos conhece desde a eternidade, com todo conhecimento que tem do nosso passado, presente e futuro ele não nos abandona e nos escolheu para uma nova vida em Cristo Jesus. Lembre-se sempre: “Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 8:37-39)

3 – Uma profecia contra os ímpios – Jesus em Salmo 139
"Ó Deus, tu matarás decerto o ímpio; apartai-vos portanto de mim, homens de sangue. Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão. Não odeio eu, ó Senhor, aqueles que te odeiam, e não me aflijo por causa dos que se levantam contra ti? Odeio-os com ódio perfeito; tenho-os por inimigos.” (v. 19-22)

Embora nas versões mais novas da bíblia sagrada haja uma mudança no verso 19 e mude o foco do restante do texto nesta seção Davi não fala mais dele, eis um grande mistério. Enquanto estava escrevendo seus salmos Davi (não apenas ele, mas os outros também), usado pelo Espírito Santo, deixou muitas pistas sobre vários acontecimentos da vida terrena de Jesus e sobre a nossa salvação, um belo exemplo se encontra no Salmo 22 onde lemos:

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras do meu gemido?” (v. 1) e no versos 16-18: “Cães me cercam; um bando de malfeitores me rodeia; traspassaram-me as mãos e os pés. Posso contar todos os meus ossos; os meus inimigos estão olhando para mim e me encarando. Repartem entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançam sortes” (referencia a morte de Jesus na cruz).

Nos versos 19-22 do Salmo 139, Davi revela a condenação eterna daqueles que negaram, rejeitaram e não quiseram ouvir a mensagem de arrependimento do evangelho de Cristo. São os não eleitos que estão sendo julgados e condenados no verso 19. Sobre as mudanças de versões e o problema que causaram à teologia moderna irei tratar mais a frente. As declarações de Davi nesta seção estão em pleno acordo com outros textos como citarei abaixo:

“Então, entrei em teu santuário, ó Deus, e por fim entendi o destino deles. Tu os puseste num caminho escorregadio e os fizeste cair do precipício para a destruição. São destruídos de repente, completamente tomados de pavor” (Salmo 73.17-19)

“Eu, porém, responderei: “Nunca os conheci. Afastem-se de mim, vocês que desobedecem à lei!” (Mateus 7.28)

“Em seguida, o Rei se voltará para os que estiverem à sua esquerda e dirá: ‘Fora daqui, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos; - E estes irão para o castigo eterno, mas os justos irão para a vida eterna” (Mateus 25.41,46)

“Não há condenação alguma para quem crê nele. Mas quem não crê nele já está condenado por não crer no Filho único de Deus. E a condenação se baseia nisto: a luz de Deus veio ao mundo, mas as pessoas amaram mais a escuridão que a luz, porque seus atos eram maus. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima dela, pois teme que seus pecados sejam expostos. Mas quem pratica a verdade se aproxima da luz, para que outros vejam que ele faz a vontade de Deus” (João 3.18-21)

Aqui nós temos uma revelação que joga por terra a ideia de que Deus odeia o pecado e ama o pecador, Davi deixa claro que aqueles que amam o pecado são odiados por Deus e revela de forma sincera o que irá acontecer com todo aquele que não se arrepender dos seus pecados. Deus ama o justo, o ímpio certamente será destruído.

Nos versos seguintes Davi descreve quem são esses odiados por Deus, para que muitas pessoas não pensem que Deus é injusto em sua justiça é importante lembrar que estas pessoas odeiam de todas as formas a Deus. Não se trata apenas de não aceitar ou ouvir as suas palavras, cada resposta negativa ao evangelho, seja ela qual for, mostra desprezo pelo dono do evangelho. É como rasgar o convite na frente do noivo. Quando se nega o presente da vida eterna se opõe a Deus de forma que Deus é 100% justo em os abandonar. Estas pessoas são de forma geral: assassinos em toda a extensão da palavra; blasfemos, ou seja, não apenas negam como difamam ou vão contra o próprio Deus e isso fica nítido não apenas nas decisões, mas na forma como vivem e pensam, seus pensamentos blasfemam contra o Deus verdadeiro; odiadores de Deus, pessoas que se opõem de forma violenta a Deus, ao seus filhos e a sua mensagem; hipócritas que apesar de negar o nome de Deus e a sua vontade usam Ele sempre que sentem necessidade, dessa forma as coisas de Deus são rejeitadas até que se precise de algo da sua parte, quando passam por necessidade até buscam a Deus, mas isso só mostra o quanto são hipócritas.

Contra tais pessoas o salmista de forma profética declara que Jesus os odeia e despreza com a mesma intensidade que o Pai os odeia e declara ser inimigo de tais pessoas, assim como Deus o é.

4 – Oração final
"Sonda-me, é Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (v.23,24)

Davi termina o Salmo 139 com um pedido especial. Reconhecendo anteriormente e adorando a Deus pela sua onipresença e onisciência, o salmista agora clama para que Deus procure nele características que o fazem caminhar para longe de Deus e o dê uma nova direção caso haja.

Eis o que Davi pede em sua oração final:

A – Sonda-me: Davi clama para que Deus sonde o seu coração, em outras palavras ele pede para que Deus examine os seus maiores desejos. Algumas vontades e paixões do homem podem fazer com que ele mude seu curso, até mesmo desviando de Deus, Davi entrega todos esses desejos, os mais profundos, nas mãos de Deus e pede “examine-os”.
B – Prova-me: A Seguir ele clama para que Deus o teste a fim de descobrir algum objetivo ruim em sua mente. Se o Senhor nos provar, quais caminhos ele encontraria dentro de nós? Quando Deus nos prova fica evidente para nós quais são as nossas motivações, por quais motivos fazemos o que fazemos. Muitos fazem a obra de Deus por puro orgulho e não por amor a Deus. Quando Deus prova o coração de Davi não descobre nada que já não sabia, quem descobre somos nós.
C – Guia-me: A oração do salmista termina clamando a Deus para que direcione seus passos. Uma atitude que exige muito mais humildade pois muitos de nós não estamos dispostos a esquecer um plano ou abandonar uma ideia que vá contra a vontade de Deus, Davi aqui se entrega completamente e ainda pede para que Deus o guie pelo caminho eterno, isso mostra a vontade de Deus acima da nossa própria vontade e nos leva a aceitar o que Deus tem para nós ao invés de ficarmos numa luta constante entre o que nós queremos e o que Deus vai de fato fazer de nós. Que Deus nos guie pelo seu caminho.

Neste Salmo conhecemos alguns dos atributos de Deus e temos completa confiança em nos alegramos neles, pois como Davi mesmo ensina Deus os usa para o nosso bem também. É sempre bom lembrar que tudo que Deus faz é para o bem daqueles que são seus, daqueles que o amam e foram chamados por ele para viverem para Ele, isso nos dá não apenas a certeza de que tudo vai ficar bem, temos plena confiança de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles, de nós, que amamos a Deus, amém.

Spurgeon e o Salmo 139

Spurgeon escreveu muito sobre este Salmo e sua compreensão como sempre, nos impressiona. Passarei aqui apenas alguns detalhes que tomei como de muita importância e farei um breve comentário sobre o texto do pastor. Eu passaria direto para o verso ao qual deixarei Spurgeon comentar, porém, há na introdução do Salmo alguns detalhes importantes que precisamos tomar nota, leiamos Spurgeon a respeito do Salmo 139:

“Salmo 139 – Introdução
Este é um dos mais notáveis dos hinos sagrados. Ele canta a onisciência e a onipresença de Deus, deduzindo delas a derrota das forças da iniquidade, uma vez que aquele que vê e ouve as abomináveis obras e palavras dos rebeldes certamente lidará com eles, de acordo com a sua justiça. O brilho deste Salmo é como uma safira, ou o ‘terrível cristal’ de Ezequiel; ele se inflama com tais faíscas de luz que convertem a noite em dia. Como um farol, este santo cântico lança uma luz clara até as partes mais extremas do mar, e nos adverte contra o ateísmo prático que, ignorando a presença de Deus, destrói a alma”
. (Spurgeon – Ed. CPAD)

Duas coisas chamam atenção na introdução feita por Spurgeon. A primeira é que ele liga perfeitamente o fato de Davi apresentar os dois atributos de Deus à sua justiça. Ele está dizendo que o ímpio será condenado justamente por Deus ser onipresente e onisciente. Isso é importante para revelar a nós um grande mistério nos versos 19 – 22 do Salmo que foi completamente mudado nas novas traduções da bíblia. Antes víamos o Salmo apenas como um louvor a Deus, agora vemos Davi apresentando os motivos pelos quais os ímpios perecerão caso continuem nos mesmos caminhos. Nossa atribuição aos textos de Salmos tem sido constantemente voltado para a bondade de Deus e o seu louvor, porém, muitos dos textos contém justiça e juízo divinos e são estes os Salmos evitados pela igreja. Spurgeon não teme a verdade e já na introdução o ímpio é colocado contra a parede.

A segunda coisa que me chama atenção aqui é o fato de Spurgeon citar o termo “ateísmo prático” na introdução. É conhecido hoje que negar os atributos de Deus, sejam alguns ou todos, é uma característica do ateísmo. Sobre isso ensina Louis Berkhof em sua Teologia sistemática:

“… que haja verdadeiros ateus, a saber, os ateus práticos e os teóricos. Os primeiros (práticos) são simplesmente pessoas não religiosas, pessoas que na vida prática não contam com Deus, mas vivem como se Deus não existisse.” (Louis Berkhof – Editora Cultura Cristã) – Caso você tenha estudado o Salmo 139 numa tradução mais atual essa informação pode não fazer sentido agora, tratarei sobre isso no final do texto.

O ateísmo prático tem crescido muito nas igrejas desde então, basta negar um dos atributos de Deus que você automaticamente se encaixa de alguma forma ao pensamento ateísta. Um crente que não crê na onisciência de Deus, por exemplo, irá negar que a salvação não se perde e fazer com que crentes passem a vida toda vigiando seus pecados para não serem condenados ao inferno, essa atitude nega que Deus já conhecia o crente antes de o chamar e faz com que Deus “descubra” coisas novas sobre a sua própria criação.

Passarei agora para uma pequena seleção de comentários de Charles Hadon Spurgeon acerca do verso mais complexo do texto, leiamos um pouco do que ele escreveu sobre o verso 16. Estes textos foram retirados da obra fornecida pela CPAD, porém tive um pequeno trabalho de traduzir do site em inglês para verificar se haviam de alguma forma mudado o texto no processo de tradução(não houve):

"Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia." Um arquiteto desenha seus projetos e detalha suas especificações; da mesma maneira o grande Criador da nossa estrutura escreveu todos os nossos membros no livro dos seus propósitos. O fato de que tenhamos os olhos, e ouvidos, e mãos e pés, tudo se deve ao sábio e piedoso propósito do céu: assim foi ordenado no decreto secreto pelo qual todas as coisas são como são. Os propósitos de Deus dizem respeito aos nossos membros e às nossas faculdades. A sua forma e tudo que a respeito deles foi indicado por Deus, muito tempo antes que existissem. Deus nos viu quando não podíamos ser vistos, e escreveu sobre nós quando não havia nada a escrever sobre nós. Quando não existia nenhum dos nossos membros, todos estes membros estavam diante dos olhos de Deus, no livro da sua presciência e predestinação.”

Esta primeira aplicação do Salmo é muito parecida com o que sempre soubemos a respeito dele. Spurgeon aqui amplia esse conhecimento e ensina que não apenas nosso corpo como também nosso intelecto, ou seja, quem você é com todas as suas características físicas e mentais foram desenhadas por Deus, até mesmo aquelas que precisam ser mudadas foram escritas, ou planejadas por Deus. É importante lembrar que Deus não precisa de um caderno para escrever sobre nós, isto é apenas uma forma de linguagem que se refere a uma coisa definida que não pode ser mudada a não ser que o dono permita, um livro é assim, depois de escrito ele não pode mais ser alterado, todas as informações estão como que seladas dentro deste conhecimento divino, ou dentro daquilo que Deus planejou para cada um de nós.

“O grande Senhor conhece quem pertence a Cristo; os seus olhos percebem os membros escolhidos que se tornarão um só com a pessoa viva do Cristo místico – O Senhor conhece aqueles que são seus; Ele tem um conhecimento especialmente familiar dos membros do corpo de Cristo; ele vê a sua substância, por mais imperfeita que seja

Eis a segunda aplicação para o verso 16 e ainda mais surpreendente. Agora Spurgeon olha para os membros do corpo como os membros da igreja de Cristo completa e se apoia em textos do Novo Testamento para ensinar que Deus conhece cada “membro” do seu corpo, aqui ele se refere aos eleitos de Deus, aqueles que foram chamados para a salvação e pertencem desde a eternidade a vida eterna. Talvez o texto que tenha usado seja o de João 15.16: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda.” ou quem sabe estaria ele se referindo ao texto em João 10.14: "Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido."

Independente de qual tenha sido sua inspiração no Novo Testamento, Charles Hadon Spurgeon estava se referindo ao corpo de eleitos e isso faz todo sentido quando estudamos a palavra de Deus e nos dá uma infinita esperança naquele que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz. A Deus daremos glória e louvor para sempre, amém.

O mistério do verso 16 – extra
Durante a pesquisa a respeito dos comentários de Spurgeon sobre o verso 16 me deparei com o texto citado no livro da editora CPAD do verso 19 e com alguma curiosidade resolvi pesquisar, uma vez que já havia lido e relido o texto usando a versão Almeida Revista e Atualizada estranhei muito quando li uma versão completamente diferente. Para compreender como foi esta mudança preciso apresentar a você quatro versões das mais conhecidas traduções do mesmo texto, serão elas ARA, NAA, NVI e NVT.
ARA: “Tomara, ó Deus, desses cabo do perverso; apartai-vos, pois, de mim, homens de sangue.”
NAA: “Como eu gostaria, ó Deus, que acabasses com os perversos;”
NVI: “Quem dera matasses os ímpios, ó Deus! Afastem-se de mim os assassinos!”
NVT: “Ó Deus, quem dera destruísses os perversos; afastem-se de mim, assassinos!”
Inúmeros debates são tratados em relação às 4 traduções citadas acima, porém, todas elas são idênticas, variando um pouco as palavras, mas no geral são a mesma coisa. Não apenas essas traduções, comparei ainda com as: Jerusalém, Peregrino (católicas), Judaica completa, A Mensagem e no desespero até mesmo a versão usada pelos Testemunhas de Jeová e a Almeida século 21. Nenhuma delas apresentou mudança relativa ao que os textos e comentários de Spurgeon mostrou, foi então que tentei pesquisar usando a versão em inglês da King James Version e obtive o resultado abaixo:

“Surely thou wilt slay the wicked, O God: depart from me therefore, ye bloody men”. Que rapidamente traduzi para:
“Certamente matará os ímpios, ó Deus: afasta-te de mim, pois, homens sangrentos”. Ou seja, os mesmos resultados apresentados pelo pastor Spurgeon na época em que escreveu seu comentário.

Apenas três versões traduzidas para o nosso idioma estão iguais, que deduzidamente seria a mais próxima do original levando em conta não apenas o verso 19 como também os 20,21 e 22; são elas, as mais similares e compatíveis com o resultado apresentado acima:

ARC 1995: “Ó Deus, Tu matarás, decerto, o ímpio! Apartai-vos, portanto, de mim, homens de sangue”
ACF: “Ó Deus, tu matarás decerto o ímpio; apartai-vos portanto de mim, homens de sangue”
King James Fiel: “Certamente, tu matarás o perverso, ó Deus; apartai-vos portanto de mim, vós homens sanguinários”

Mais tarde foi possível conseguir graças a colaboração do meu irmão Túlio, do grupo Palavras em Chamas uma versão antiga da bíblia sagrada em português. Edição Revista e Reformada de 1929, pela Trinitarian Bibli,e Society contendo o seguinte texto:

“O Deus, tu matarás de certo o impio apartae-vos pois de mim, homens de sangue” (digitado conforme texto original)
Por algum motivo as novas versões estão com o sentido do texto alterado e não são simples mudanças, elas vão muito além de algumas palavras mudadas, vamos pensar mais sobre as diferenças:

Versões novas: O salmista deseja que Deus destrua o ímpio. Aqui o texto se torna muito pessoal, é como se Davi desejasse isso aos inimigos dele, porém, essa versão não combina muito com o restante do texto quando mostra que Davi não se afligiria com aqueles que falam mal de Deus e ainda quando diz que ele teria ódio perfeito, uma vez que o mesmo declara em outro salmo ter nascido em pecado.
Versões mais antigas: O texto toma um rumo profético, aqui percebemos que vai além de uma pessoa falando, ele parece se referir ao próprio Cristo afirmando a condenação daqueles que vão contra a vontade de Deus e/ou agem como se Ele não existisse. Sendo Jesus poderíamos aceitar o termo “ódio perfeito” uma vez que ele veio ao mundo e foi elevado ao céu sem pecado algum.

Portanto, fica claro que, pelo menos em um texto os novos tradutores não apenas mudaram o texto, mas desviaram o verdadeiro sentido de grande parte de um texto, não apenas um trecho qualquer, mas um trecho importante para este Salmo. Mudando este verso nós temos um desvio da mensagem de que o ímpio será castigado quando Jesus voltar, e quem sabe quantos textos assim com mensagens importantes estão sendo aos poucos mudadas enquanto lemos as nossas bíblias? esses problemas me lembram o perigo de uma teologia de salvação universal que aos poucos apontam para uma nova e distorcida teologia para os nossos dias.

Enfim, o que Spurgeon comenta sobre o Salmo 139.19? Eis o resultado:
“Não pode haver dúvida nesta mente, pois tu viste as suas transgressões, que, na realidade, foram feitas na tua presença; e tu toleraste o suficiente as suas provocações, que foram tão abertamente manifestas diante de ti. Os crimes cometidos diante da face do Juiz provavelmente não ficarão impunes. Se os olhos de Deus se angustiam com a presença do mal, é apenas natural esperar que Ele remova o objeto da ofensa. Deus, que vê todo o mal, irá matar todo o mal. Com os soberanos terrenos, o mal pode ficar impune, por falta de provas, ou a lei pode deixar de ser executada por falta de vigor por parte do juiz; mas isto não pode acontecer no caso de Deus, do Deus vivo… se há alguma coisa que é certa, é que Ele livrará a criação dos seus adversários”.

Que tenhamos mais cuidado ao aprender a palavra de Deus, sem negar tudo o que o próprio Deus quis revelar e aceitar a sua boa e perfeita vontade como filhos que amam o Pai e tudo o que ele mesmo quis fazer, amém.

Devair S. Eduardo
Versões bíblicas usadas na exposição do texto: NAA (Nova Almeida Atualizada); NVT (Nova Versão Transformadora); ACF (Almeida Corrigida Fiel).

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