segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O deserto do século 21


"Disse, porém, Moisés ao Senhor: “Ó Senhor! Nunca tive facilidade para falar, nem no passado nem agora que falaste a teu servo. Não consigo falar bem!” Disse-lhe o Senhor: Quem deu boca ao homem? Quem o fez surdo ou mudo? Quem lhe concede vista ou o torna cego? Não sou eu, o Senhor? Agora, pois, vá; eu estarei com você, ensinando-lhe o que dizer. Respondeu-lhe, porém, Moisés: “Ah, Senhor! Peço-te que envies outra pessoa”[ Ex. 4.10-13]

Você já sentiu vontade de ser transparente? E já imaginou que, mesmo não querendo ser assim você aparentemente pode ser? As pessoas não te vêem ou ninguém dá a mínima importância pra quem você é? Naquele momento histórico isso era tudo que Moisés queria ver acontecendo, ser invisível para que Deus escolhesse outra pessoa, um parente mesmo, mas qualquer outra pessoa que não fosse ele. E quem diria que a culpa parcialmente foi dele mesmo porque ficou interessado em ver uma espécie de planta pegando fogo no deserto em pleno meio dia…


De fato Moisés não queria ser invisível simplesmente, ele tinha vários motivos para querer ser. A pouco tempo ele matara um egípcio quando estava espancando um escravo, fugiu com medo e achou sua própria família. Acredito que o fato de ser da casa de Faraó não fez muita diferença pra ele após o ocorrido, afinal o próprio rei queria matá-lo. Moisés vivia o que seria uma vida comum com o povo de Midiã onde provavelmente conseguiu casa e esposa segundo o relato bíblico. Ele nunca, jamais haveria de pensar que, um homem como ele seria escolhido para uma missão tão imensa quanto aquela. Livrar o povo de Deus que estava sendo escravizado no Egito. Tenho certeza de que o restante dessa história você conhece muito mas, muito bem. Sobre as pragas, a fuga e o percurso cansativo e duro de Moisés no deserto, porém há um pensamento aqui que pode ser importante para nós hoje.

Ali estava, um dos maiores heróis da história se esquivando a ponto de o próprio Deus estar irado pela insistência com que ele tentava recusar a vontade santa e perfeita de Deus. O mais estranho, ou hilário é que aquele não foi o último deserto, nem tão pouco a última missão de resgate a ser recusada. Desde que o povo saiu do Egito esse deserto não se tornou menos quente ou menos duro quanto era naquela época, muito pelo contrário. Se antes tínhamos um deserto real, onde as pessoas eram levadas à escravidão de forma nítida e descarada hoje temos realidades desérticas, pessoas que vivem como se estivessem no mesmo tempo em que Moisés fora chamado.

A grande verdade é que o sistema se tornou como um deserto, quente, mortal e decepcionante como uma vida de escravidão e terror. As pessoas trabalham constantemente sem nunca alcançarem coisa alguma e muitas das que alcançam têm de fazer algumas coisas, mesmo que mínimas, erradas. E o fato de serem pequenas coisas erradas não as tornam menos erradas. Ou seja, estão presas de uma forma ou de outra neste deserto chamado sistema que constantemente as causam dor e sofrimento. Caso você seja, assim com eu, bem resolvido no melhor dos sentidos da palavra e não compreende bem sobre o que estamos conversando, peço que faça um exercício hoje mesmo. Pergunte a alguém próximo quando foi a última vez que ela se decepcionou e como ela se sente, de maneira geral sobre a forma como tem vivido. É comum cristãos não saberem sobre o que está neste texto, é possível ainda que nem mesmo Moisés sentisse toda a aflição que o povo passava enquanto estava nas mãos do faraó. E não é difícil de enxergar ou entender o motivo de tantas aflições em nossos dias mas, onde mesmo nós entramos nessa história toda? Onde estão aqueles que tentam de uma forma ou de outra serem invisíveis a Deus ao mesmo tempo que desejam ser vistos por ele? Invisível quando se trata do ato de doar ao próximo para tirar mais um desse terrível e doentio deserto e visível quando se trata de receber as boas bênçãos do nosso bom Deus. Uma terrível falha do nosso cristianismo que também atravessa um deserto no século XXI onde as pessoas estão nadando na contramão do que temos escrito, do que temos ordenado pelos heróis da nossa fé.

A poucos dias ouvi um cristão afirmar e com a concordância de outros membros que “um bandido bom é um bandido morto”. Claramente um pensamento mundano que demonstra total falta de amor ao próximo o que é consequentemente totalmente contrário ao que Jesus fez e ensinou. Pensamentos assim deixam o coração da igreja e dos membros duros como pedra. Incapazes de sentir a dor do próximos eles reagem ao primeiro impulso como que soldados dispostos a matar e julgar.

O apóstolo  Paulo nos ensinou uma coisa muito importante na carta aos Romanos quando nos incentiva a não apenas aceitarmos a missão universal de amar o próximo, vejam que não estou dizendo de gostar do próximo. Esse amor deve nos levar a desejar tirar esse “próximo” do deserto, mais ainda, ele nos ensina que devemos o mais rápido possível deixar de lado as atitudes representantes dessa cultura atual de nosso sistema. Em outras palavras devemos abandonar a forma de agir e pensar daqueles que afligiam os egípcios no deserto e agir de forma a apresentar uma nova realidade aos seus filhos, como foi o caso de Moisés.



E você ainda prefere ser o sujeito transparente da sua igreja e negar fazer parte dessa grande missão chamada Salvação… imaginando, mas imaginando mesmo que Jesus vai te abençoar com esse pensamento mesquinho e egoísta e achando que Deus não entende o que acontece no fundo da sua mente? Ou simplesmente tem medo de se envolver demais com Deus mas ainda assim quer receber as tão sonhadas “bênçãos” prometidas? Tenho uma péssima realidade pra você…
O simples fato de se incomodar com a atual situação do seu próximo já demonstra uma direção, não precisamos mudar o mundo inteiro. Se mudarmos a realidade desoladora de uma pessoa por vez, simplesmente por amor, estamos cumprindo toda a lei de Deus a respeito daquilo que ele espera de seus filhos.

Talvez você tente se esquivar ainda mais dizendo que nunca recebeu o chamado de Deus para fazer uma coisa assim… certamente uma imaturidade espiritual, pois se formos analisar bem o contexto em que nós vivemos vamos notar que temos uma responsabilidade maior ainda do que a de qualquer líder nacional pois carregamos em nosso coração as palavras que podem retirar alguém do sofrimento, apresentar a uma pessoa qualquer a vida eterna e mudarmos, agindo em apenas uma pessoa, uma família inteira.

O seu chamado foi dado assim que conheceu as palavras de salvação, negar esse compromisso pode ser desanimador e triste, ficar de fora de uma história como essa é realmente a mesma coisa de ser invisível, porém nem mesmo Deus irá notar sua presença. Seja na missão dada por ele ou mesmo nas bênçãos que você supostamente aguarda chegar. Então o melhor caminho é começar de algum lugar, aceitar e fazer como Moisés fez, pedir forças, pedir orientação estudarmos a sua palavra e de qualquer jeito mesmo ir a luta, temos um trabalho muito grande a ser feito e o nosso Deus está nos acompanhando o tempo inteiro, pronto para nos ajudar!

Devair S. Eduardo

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